O galho em que estamos nos segurando é o do que vivemos até aqui.

O galho em que estamos nos segurando é o do que vivemos até aqui

 danjosua.blogosfera.uol.com.br

 

As horas se passaram e os seus braços já estavam doendo demais. Sem ver saídas, ele tentou o canto dos desesperados: “Deus, se você existir, essa será a sua chance de provar”.  As nuvens se abriram e ele então ouviu uma voz dizendo do céu: “Você também precisa provar que acredita em mim. Solte as suas mãos, que eu lhe seguro”.

Assustado, o homem começou a argumentar:  “Como eu sei que você vai me salvar?”. Então, ouviu mais uma vez a mesma proposta. Até que os céus se calaram enquanto ele continuou pedindo provas. 

A primeira vez em que ouvi essa história foi pela boca de uma das psicólogas mais importantes da atualidade, a americana Marsha Linehan em um retiro de mindfulness para terapeutas. 

Ela é uma mulher extremamente religiosa. Eu não sou.

E, como uma pessoa sem espiritualidade, fiquei revoltado ao escutar aquilo.  Passei todo o período da minha meditação planejando o que falaria para ela. Eu estava convencido de que lhe mostraria que essa história não dizia nada sobre pessoas descrentes. Sentindo-me completamente armado, na tarde seguinte, expus o meu argumento.

“Esse enredo me parece desonesto”, eu disse, tentando soar educado. “Ele pressupõe que, se o homem tivesse se soltado do galho, Deus de fato o teria salvo. Se o final

fosse outro, se ao fim da história ele não fosse resgatado, a moral seria outra. Nesse caso, ela seria: não confie em vozes do além”.

Marsha Linehan me olhou por cima dos óculos e disse: “Você não entendeu. Essa não é uma história sobre Deus. É sobre o caráter desse homem”.

No final, compreendi: é uma história sobre como é mais difícil mudar de ideia do que imaginamos. E como, raramente, uma prova é suficiente para irmos contra as nossas intuições. Era, afinal, sobre um ateu que se viu frente a Deus, mas poderia muito bem ser sobre um crente que se viu frente à indiferença do universo.  Não é sobre um homem específico, mas sobre a rigidez do nosso caráter. E sobre a imaterialidade das histórias que, no fundo, tomam decisões por nós.

Porque, acredite, quem toma as nossas decisões e constrói nossas opiniões não é a nossa mente, a racionalidade, a divindade ou qualquer outra entidade superior, mas o que a vida fez da gente até aqui. 

E, assim, continuamos agarrados em galhos que não estão mais nos salvando de nada.

Fonte: https://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2018/06/21/o-galho-em-que-estamos-nos-segurando-e-o-do-que-vivemos-ate-aqui/

Deixe uma resposta