Como o smartphone muda seu cérebro (parte 2)

Nossa memória ganha um HD externo

O que acontece agora é que informações como números de telefone, antes registradas no seu cérebro como memórias de longo prazo declarativas, passaram a ser guardadas no seu celular. Isso vale também para outras recordações, como lembranças de viagens, shows ou festas, que praticamente não existem se não forem registradas em uma foto.

“Vamos supor que eu queira lembrar dos momentos que eu passei com meu irmão quando ele veio me visitar. Isso está registrado na minha memória, ainda que eu não possa ver, porque a memória de longo prazo é uma fonte de armazenamento não acessível”, diz Weingartner. Mas ter um celular registrando esse momento modifica essa nossa relação com essa memória, porque passamos a acessá-la quando ela não está só registrada no cérebro.

O lado bom é que, ao criar um histórico de lembranças que podem ser consultadas com um toque, o celular ajuda a consolidarmos algumas memórias. Como nossa capacidade cognitiva é limitada (estudos apontam que nosso cérebro processa só 60 bits por segundo), os especialistas julgam que delegar parte da memória de longo prazo aos smartphones não é tão danoso.

Dopamina na veia vicia

Claro que nem todas as interações do smartphone com seu cérebro são úteis ou saudáveis. O aparelho é todo pensando para fazer você ficar louco para pegá-lo o tempo todo, são os “gatilhos neurológicos”.

Funciona assim: todas as vezes que pinta alguma notificação no seu celular, você libera dopamina. Esse neurotransmissor é responsável em alguma medida pela sensação de prazer. Alguns alertas, em especial, como sinalizações de “curtidas” ou comentários em postagens que você fez, geram ainda mais prazer.

“Você faz uma ação, tem a liberação de um neurotransmissor e se sente bem. A tendência é querer fazer isso mais vezes”, diz Morya.

Então, se você já se pegou rolando o feed no Facebook ou no Instagram por horas e horas sem objetivo nenhum ou querendo loucamente postar algo, saiba que você caiu em uma armadilha. É o ‘loop de dopamina’, um ciclo vicioso de bem-estar que faz seu cérebro esquecer do mundo.

O smartphone deixa a gente conectado 24 horas por dia, recebendo uma injeção de neurotransmissores cada vez que apertamos a bolinha do celular
Janaína Brizante, psicóloga e diretora do laboratório de neurociência da Nielsen.

Estresse causado pelo tsunami de notificações

Só que seu cérebro não é bobo. Ao notar essa inundação de dopamina, ele cria uma trava para impedir que qualquer meia dúzia de curtidas leve você ao êxtase. Parece ótimo, mas o estímulo precisa ser cada vez maior para que você tenha a mesma sensação de prazer. Aí vira uma armadilha.

Além disso, o sistema que libera os neurotransmissores é sensível a indícios de que algo agradável está prestes a acontecer. Ou seja, basta uma notificação para que fique em estado de alerta. Entra em cena uma dose de outro neurotransmissor, o cortisol, aquele que induz ao estresse.

Esse processo vai condicionando nosso cérebro a aguardar que pintem notificações no celular. “Isso gera bastante ansiedade e faz que algumas pessoas fiquem o tempo todo checando se há coisa nova no celular”, afirma Brizante.

Essa constante expectativa pelo surgimento de uma notificação gera outro efeito. Além de manter os donos de celulares em constante estado de alerta, deixa-os desatentos.

“A questão da atenção é brutal”, comenta Marília Zaluar Guimarães. Ela cita estudos em que pesquisadores demonstraram que a capacidade cognitiva é seriamente afetada pela simples presença do celular. Eles testaram alunos em três situações diferentes: com o celular posicionado em cima mesa, com o celular na bolsa/bolso ou com o celular fora sala em que estavam. Aplicaram provas sobre o conteúdo ensinado nesses três momentos.

O desempenho dos estudantes melhorou à medida que o aparelho foi se distanciando. Agora, um detalhe chocante: o pior resultado dos alunos foi com os celulares em cima da mesa, ainda que estivessem virados para baixo. Ou seja, mesmo sem ver a tela, o aparelho já é uma distração por todos os gatilhos neurológicos armados previamente no cérebro.

Esse efeito persiste também com o aparelho desligado, principalmente quando se exige a concentração em uma só atividade.

Crise no relacionamento: atarefados e desatentos

O poder dos smartphones de executar inúmeras funções é outra coisa que mexe com seu cérebro. Parece bom poder tocar música, enviar mensagens e jogar sem trocar de aparelho. Mas toda vez que você pula de um app para outro, seu cérebro paga um “pedágio” em capacidade de processamento.

O psicólogo norte-americano David Meyer, professor da Universidade de Michigan, estima que a troca intensa entre atividades pode comprometer até 40% do tempo produtivo do cérebro.

Atire o primeiro like quem nunca passou por isso: você posta algo nas redes sociais e, segundos depois, surge na tela do seu celular uma resposta, em forma de “curtida”, comentário ou novos seguidores. Bom, né?C

Os especialistas chamam isso de gratificação imediata, e seu efeito é um dos mais preocupantes, pois leva a um desequilibro emocional.

“Isso faz com que a gente perca a capacidade de se dedicar a uma coisa cuja gratificação vai demorar muito a chegar”, explica Marília Zaluar Guimarães. “As pessoas acostumadas a essa rapidez do smartphone não conseguem lidar com a frustração diante da espera por uma resposta. Ou passam a repudiar atividades que não recompensem imediatamente o esforço empreendido.”

E, por enquanto, somente uma tecnologia é capaz de dar esse nível de gratificação em tempo real, onde quer que você esteja: o celular. É o feedback portátil, que faz parte de você, resume Morya.

Mas, vamos deixar claro que apesar de bagunçar sua cabeça de diversas formas, o smartphone é uma ferramenta revolucionária. Para os especialistas, o aparelho ampliou o poder de comunicação, de acesso a informação e colocou na mão de cada um uma grande capacidade computacional.

“Tem gente que diz que o celular tira o treinamento do cérebro, que faz mal”, analisa Morya. “Pode fazer, se você deixar de usá-lo para funções mais complexas. O celular é uma ferramenta aliada: você pode deixar funções corriqueiras para fazer nele e usar seu cérebro em atividades mais complexas.”

Fonte:
https://www.uol.com.br/tilt/reportagens-especiais/como-o-smartphone-muda-seu-cerebro/#frases-1

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